4 Junho 2026

Novo Estudo Questiona Chegada de Humanos à América do Sul em Sítio Arqueológico

Um dos sítios arqueológicos mais importantes da América do Sul enfrenta agora um questionamento científico que pode mudar nossa compreensão sobre a chegada dos primeiros humanos ao continente. Monte Verde, no Chile, foi descoberto em 1975 a cerca de 800 quilômetros ao sul de Santiago e, sem dúvida, revolucionou as teorias sobre povoamento das Américas ao sugerir uma idade de aproximadamente 14.500 anos. No entanto, um novo estudo independente publicado na revista Science propõe que o sítio pode ter apenas entre 4.200 e 8.200 anos. Esta diferença de datação levanta questões fundamentais sobre como e quando os primeiros humanos chegaram às Américas, desafiando décadas de consenso científico.

Novo Estudo Desafia Datação do Sítio Monte Verde no Chile

A primeira equipa independente de investigadores a avaliar Monte Verde nos últimos 50 anos publicou resultados que contradizem meio século de pesquisa. O estudo na revista Science sugere que o archaeological site pode ter menos de 8.000 anos, com ocupação humana ocorrendo possivelmente entre 8.200 e 4.100 anos atrás. Os cientistas coletaram e dataram sedimentos de nove áreas ao longo do Riacho Chinchihuapi, analisando mudanças na paisagem ao longo de milhares de anos.

Descoberta de Camada de Cinzas Vulcânicas Muda Perspectiva

Os investigadores identificaram uma camada de cinza vulcânica em afloramentos rochosos adjacentes ao ribeiro, onde a sequência estratigráfica original permanece preservada. Esta camada, conhecida como Lepúe Tephra e amplamente distribuída na região, foi datada de aproximadamente 11.000 anos atrás. Segundo Claudio Latorre, co-autor do estudo e paleoecologista da Universidade Católica Pontifícia do Chile, qualquer material acima dessa camada de cinzas deve ser mais jovem. “Nós basicamente reinterpretamos a geologia do local. E chegamos à conclusão de que o sítio de Monte Verde não pode ser mais velho que 8.200 anos antes do presente”, disse Latorre. Com base na localização das cinzas, os artefactos de Monte Verde devem ter sido depositados muito mais recentemente.

Como a Erosão do Riacho Contaminou as Amostras

A análise geológica sugere que o ribeiro mudou de curso durante uma fase climática quente e seca ocorrida há cerca de 10.000 anos. Quando o nível do mar desceu, o riacho rasgou um curso mais profundo na encosta, trazendo à superfície fragmentos bem preservados de madeira e outros materiais orgânicos da Idade do Gelo. Estes materiais, expostos pelo recuo dos glaciares, foram redepositados perto do archaeological site, contaminando as primeiras tentativas de datação. Todd Surovell, da Universidade de Wyoming, afirma que não há evidências suficientes de que os artefactos datados no local sejam realmente tão antigos.

Datação por Luminescência Revela Idade Mais Recente

A datação por Luminescência Opticamente Estimulada vem sendo amplamente utilizada para determinar a idade de soterramento de grãos de quartzo e a idade de confecção de artefatos cerâmicos. Esta técnica mede a luz emitida por materiais cristalinos quando estimulados, sendo a intensidade luminosa proporcional ao tempo de exposição do material à radiação. No contexto arqueológico, utiliza-se essa luz emitida por minerais para determinar o tempo decorrido desde o seu soterramento.

Monte Verde Revolucionou o Entendimento sobre Povoamento das Américas

Descoberta que Desafiou a Cultura Clovis

Descoberto em 1976 por camponeses que escavavam uma cerca, Monte Verde permaneceu oculto para o mundo científico sob vegetação e cinzas vulcânicas. A cultura Clovis, identificada no Novo México na década de 1920, foi considerada durante décadas a primeira cultura das Américas, com artefatos produzidos há cerca de 13.000 anos. Este modelo, conhecido como “Clóvis-primeiro”, afirmava que uma única leva de indivíduos que cruzou o estreito de Bering teria iniciado o povoamento do continente americano. Monte Verde contradiz este modelo anteriormente aceito de colonização das Américas após 13.500 cal BP. As descobertas foram inicialmente rejeitadas pela maioria da comunidade científica. Somente em 1997, após quase 20 anos de debate, arqueólogos norte-americanos aceitaram as datações sul-americanas e celebraram a mudança de paradigma.

Evidências de Ocupação Humana de 14.500 Anos

Monte Verde II foi ocupado em torno de 14.800-13.800 BP por cerca de vinte a trinta pessoas. Foram achados restos de batata silvestre e quarenta e cinco espécies diferentes de plantas comestíveis, mais de um quinto delas originando-se de até 240 km de distância. Nove espécies de algas e algas marinhas foram identificadas, com amostras datadas diretamente entre 14.220 e 13.980 anos. Além disso, estruturas semelhantes a tendas de seis metros de comprimento foram erguidas nas margens do riacho, emolduradas com troncos e pranchas.

Importância do Archaeological Site para Teorias de Migração

“Monte Verde veio mudar completamente a discussão”, afirma Miriam Liza Alves Forancelli Pacheco, arqueóloga da Universidade Federal de São Carlos. A descoberta levou arqueólogos a procurar explicações sobre como as pessoas chegaram ao continente americano antes do aparecimento de um corredor sem gelo no Canadá, que só surgiu há cerca de 13.800 anos. Consequentemente, surgiu o estudo da auto-estrada do kelp, rota costeira do Pacífico.

Arqueólogos Originais Contestam as Novas Conclusões

Tom Dillehay Defende 50 Anos de Pesquisa

Tom Dillehay, arqueólogo da Universidade Vanderbilt que lidera pesquisas em Monte Verde desde a década de 1970, contestou duramente as novas descobertas. “Acha mesmo que 50 anos de investigação num sítio, realizada por mais de 80 especialistas de tantas disciplinas diferentes e vindos de todo o mundo cometeram um erro assim tão grande?”, escreveu num e-mail. Segundo Dillehay, não existe uma camada de cinzas de 11.000 anos sob o sítio de Monte Verde II. “Eles estão estudando um contexto diferente na área e projetando-o para o sítio a partir de outro local”. Na avaliação dele, o novo estudo contém “muitos erros metodológicos e empíricos”. Dillehay acredita que os autores têm uma agenda clara de trazer de volta a teoria “Clovis First”.

Especialistas Questionam Metodologia do Novo Estudo

Michael Waters, da Universidade Texas A&M, classificou o trabalho como um “trabalho geológico extremamente falho”. Waters apontou que os autores afirmam que um dos terraços do sítio se formou em parte por erosão e em parte por deposição, algo geologicamente impossível. Além disso, faltaram procedimentos importantes como micromorfologia, identificação da madeira, análise química dos ossos e exame de paleossolos. David Meltzer, da Southern Methodist University, destacou que as amostras foram coletadas a dezenas ou centenas de metros do sítio original. Especialistas dizem que o estudo não oferece explicação suficiente para artefatos datados diretamente em 14.500 anos atrás, incluindo uma presa de mastodonte transformada em ferramenta, uma lança de madeira e uma vara de cavar com ponta queimada.

Debate Científico Sobre Interpretação Geológica

Por sua vez, Calogero Santoro, arqueólogo da Universidade de Tarapacá no Chile, afirmou que “o argumento é muito simples e convincente”. Thomas Stafford, investigador de geoquímica, disse que “a análise da sedimentologia e estratigrafia parece rigorosa”. A equipe científica do Projeto Monte Verde prepara atualmente uma resposta científica detalhada que abordará sistematicamente os erros metodológicos, empíricos e contextuais presentes no estudo.

Implicações para Outros Sítios Arqueológicos Pré-Clovis

White Sands e Pegadas de 23.000 Anos

Apesar do questionamento sobre Monte Verde, outros archaeological sites pré-Clovis mantêm evidências sólidas. No Parque Nacional White Sands, no Novo México, pegadas fossilizadas foram datadas entre 21.000 e 23.000 anos. As marcas se espalham por mais de 300 quilômetros quadrados e pertencem a crianças e adolescentes que viveram há pelo menos 21.000 anos. Três linhas independentes de pesquisa confirmaram a faixa etária: datação por radiocarbono de pólen de coníferas, sementes de Ruppia cirrhosa e luminescência opticamente estimulada de grãos de quartzo. Segundo Matthew Bennett, da Universidade de Bournemouth, pegadas não podem ser movidas para cima e para baixo nas camadas do solo, tornando a evidência mais difícil de contestar.

Rota Costeira do Pacífico Ainda Permanece Válida

A teoria da passagem costeira permanece muito mais provável após as descobertas em White Sands. Uma passagem biologicamente viável começou a se formar ao longo da costa, da Ponte Terrestre de Bering para regiões ao sul das geleiras, cerca de 16.000 anos atrás. A maioria dos arqueólogos ainda acha provável que pessoas vivessem no continente americano antes da cultura Clovis e chegaram em vagas de migração, tanto por terra como pelo mar.

Como Esta Descoberta Afeta Archaeological Sites na América do Sul

O novo estudo reforça a necessidade de verificação independente de sítios arqueológicos antigos. Outros archaeological sites na América do Sul sustentam a possibilidade da chegada pré-Clovis. No Brasil, a Serra da Capivara apresenta pinturas rupestres de 30.000 anos e restos de fogueira com quase 50.000 anos.

Conclusão

Certamente, o debate sobre Monte Verde nos lembra que a ciência arqueológica permanece em constante evolução. Embora o novo estudo questione meio século de pesquisa, outros sítios pré-Clovis como White Sands continuam oferecendo evidências sólidas da chegada antiga de humanos às Américas. De qualquer forma, essa controvérsia ressalta a importância da verificação independente e do rigor metodológico. A história do povoamento americano ainda reserva muitas descobertas surpreendentes pela frente.