Neutralidade Tecnológica Avança para Reverter Proibição de Motores a Combustão
A neutralidade tecnológica está desafiando políticas ambientais rígidas na Europa. Com efeito, a União Europeia recuou na meta de 2035, reduzindo a proposta de 100% para 90% na eliminação de emissões de escapamento em comparação com 2021. A realidade do mercado motivou essa mudança: enquanto as vendas de veículos a combustão permaneceram em 37,8% no primeiro trimestre de 2025, os veículos elétricos alcançaram apenas 15,6%. Em particular, os híbridos dominaram com 43,2% das vendas. O setor automotivo representa 7% do PIB da UE e emprega mais de 13 milhões de trabalhadores. Neste artigo, exploramos como o princípio da neutralidade tecnológica está remodelando a transição energética europeia e as reações controversas que essa mudança gerou.
União Europeia Recua na Proibição Total de Motores a Combustão
A Comissão Europeia abandonou a meta de proibição total de motores a combustão estabelecida em 2023. De acordo com as regras originais, todos os carros e vans novos vendidos no bloco após 2035 deveriam ter emissão zero, eliminando na prática os motores que funcionam com combustíveis fósseis. A nova proposta exige redução de 90% nas emissões de escapamento, permitindo que os 10% restantes sejam compensados pelo uso de aço de baixo carbono produzido na União Europeia ou por combustíveis sintéticos e biocombustíveis.
Dessa forma, as montadoras poderão vender veículos não totalmente elétricos após 2035, incluindo híbridos plug-in, extensores de autonomia e híbridos leves, juntamente com modelos totalmente elétricos e a hidrogênio. Além disso, a Comissão introduziu maior flexibilidade nas metas de 2030, permitindo o acúmulo e o financiamento entre 2030 e 2032. A meta de redução de carbono para vans em 2030 foi reduzida de 50% para 40%.
A medida representa uma mudança significativa em relação às regras adotadas em 2023, que estabeleciam uma meta de redução de carbono de 100% para carros e vans novos a partir de 2035. As montadoras também se beneficiarão de supercréditos antes de 2035 para veículos elétricos pequenos e acessíveis fabricados na UE.
Pressões Econômicas Forçam Mudança na Política Verde Europeia
O setor automotivo europeu enfrenta um “risco de morte” devido à concorrência chinesa e à perspectiva de uma guerra comercial com os Estados Unidos. A realidade de fechamento de fábricas e a pressão crescente dos fabricantes asiáticos levaram a UE a anunciar medidas de auxílio para um segmento que representa quase 1 trilhão de euros em produção econômica.
A concorrência chinesa se intensificou rapidamente. Um quarto dos veículos elétricos vendidos na União Europeia neste ano serão fabricados na China. Marcas chinesas como BYD cresceram de 0,4% do mercado europeu de carros elétricos em 2019 para 8% das vendas no ano passado. Os carros elétricos de marcas chinesas vendidos na Europa são até 28% mais baratos do que os das marcas europeias.
Além disso, a infraestrutura de carregamento demanda investimentos de 280 bilhões de euros. A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis aponta que a União Europeia precisa adotar um ritmo de instalação de 14.000 pontos de carregamento públicos por semana, comparado aos atuais 2.000.
A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, manteve os objetivos em termos de emissões, mas com uma “abordagem pragmática e flexível”.
Reações Dividem Fabricantes e Ambientalistas
As montadoras europeias redirecionaram estratégias de investimento diante da flexibilização regulatória. A Volkswagen alocará 60 bilhões de euros dos 180 bilhões reservados em 2023 para manter carros a combustão competitivos. Arno Antlitz, diretor financeiro do Grupo Volkswagen, afirmou que “o futuro é elétrico, mas o passado ainda não acabou”. Esta decisão contrasta com o posicionamento de 2022, quando a empresa planejava vender apenas carros elétricos na Europa a partir de 2033.
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis defende que a neutralidade tecnológica deve guiar todas as propostas regulatórias da UE. Por outro lado, a Associação Alemã da Indústria Automotiva projeta que 225 mil postos de trabalho serão perdidos até 2035, sendo que 50 mil poderiam ser preservados com maior protagonismo de híbridos e motores a combustão operando com combustíveis renováveis.
Enquanto isso, ambientalistas criticam duramente a mudança. Lucien Mathieu, diretor de carros da Transport & Environment, declarou que “é irônico que a UE esteja adiando as metas de emissões justamente quando as vendas de veículos elétricos disparam”. A organização argumenta que a neutralidade tecnológica esconde opções mais caras para os consumidores e prejudica a competitividade europeia frente à China.
Conclusão
A neutralidade tecnológica redefiniu a transição energética europeia. De fato, a mudança de 100% para 90% na redução de emissões reflete pressões econômicas concretas e a concorrência asiática crescente. Acima de tudo, o recuo permite que montadoras mantenham motores a combustão com biocombustíveis e combustíveis sintéticos após 2035. As reações permanecem divididas: fabricantes celebram a flexibilidade enquanto ambientalistas alertam para riscos competitivos. Assim, a Europa busca equilibrar objetivos climáticos com realidades de mercado.