O Pão e Circo em Hortolândia - Resistência ou Aceitação

O Pão e Circo em Hortolândia – Resistência ou Aceitação

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Apesar de todo o esforço da Associação Amor de Bicho Não Tem Preço (ABNTP) que levou a denúncia e cobrou ações do Ministério Público de Hortolândia, o Desembargador Paulo Ayrosa suspendeu os efeitos da decisão proferida pela Juíza da 2ª Vara do Foro Distrital de Hortolândia, que havia cancelado o rodeio da cidade, marcado para acontecer entre os dias 27 e 31 de julho.

Apesar de todas as observações levantadas na liminar (imprecisão dos instrumentos que seriam usados no rodeio e a realização do mesmo em perímetro urbano que é proibida por lei estadual) e a decisão final da juíza contrária, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) verificou que os organizadores possuíam todas as licenças para o evento, tanto aquelas emitidas pela Secretaria Estadual de Agricultura que permite a realização do evento, bem como o AVCB do Corpo de Bombeiros e as licenças municipais.

No entanto, o desembargador não deve ter levado em conta, por ignorância ou por outro motivo, que o Inquérito Civil foi instaurado em 2014 após o acidente na SP-101 que levou a óbito seis cavalos envolvidos no rodeio, o cachorro Beethoven e as sequelas deixadas nos passageiros dos carros envolvidos nas colisões com os animais. O Inquérito ainda deixa bem claro que o prefeito cometeria improbidade administrativa caso a prefeitura concedesse o alvará. Além disso, o evento deveria ser impedido, se necessário, com o uso da força policial.

Toda a tragédia de 2014 poderia ter sido evitada caso todos entendessem que eventos que aglomeram animais como cavalos e bois, não devem ser realizados em perímetro urbano. Incluo aqui o Desfile e Encontro de Cavaleiros que já aconteceu como prévia do rodeio, que tratando-se de segurança pública fica muito longe do próprio rodeio. São aglomerações de pessoas alcoolizadas, crianças, veículos e animais, muitas vezes perturbados pela música em volume altíssimo, que pode gerar diversos acidentes, tanto no local como no caminho de volta às suas residências.

Por outro lado,

as leis são muitas vezes conflitantes e, cada pessoa, segundo o seu interesse, interpreta e usa as leis a seu favor sem considerar todo o contexto e coerência que se deve buscar no que diverge.

Ao mesmo tempo que existem leis que protegem os animais de serem obrigados a participarem de eventos que os expõem como atração, entretenimento e/ou espetáculo aos homens como é o caso dos “rodeios” e os “circos”, este último, literalmente, já definitivamente proibida a presença de animais; também há leis que regulamentam a profissão do peão e os eventos de “rodeio”. É nestas últimas leis que os organizadores do “Pão e Circo” se apoiaram e juntamente com a aprovação de todos os órgãos públicos necessários conseguiram a reversão do processo a favor e do “circo com os animais”. Sendo assim, os organizadores do evento afirmam que “cumprem todas as regras previstas nas leis federais e estaduais, com a utilização apenas e tão somente de apetrechos e utensílios que atendam a todas as normas vigentes e que garantem o bem estar da escravidão animal”.

A única coisa que esperava era ver coerências nas ações, que entendessem o que cada lei está dizendo; se realmente são coerentes, se elas estão vigentes pelo bem-estar do povo ou para os benefícios egoístas de alguns. Não parece adequado cada um defender os seus interesses, se apoiando em leis e normas, sem se preocupar se suas ações e escolhas não colocam em perigo, por exemplo, a segurança pública.

Compreendo o homem do campo e o peão que não estão expondo os animais como espetáculo aos homens, mas criam e convivem com os mesmos para que o nosso paladar carnívoro seja satisfeito, já que de certa forma, faço parte deste sistema que transformou o animal em produto, em um capital para se obter lucro.

Hoje, na sociedade que vivemos, a carne não faz parte da sobrevivência humana, muito pelo contrário. Como alguns dizem, se quiser comer carne, vai e mata. Não diria coragem, mas quantos teriam estômago pra isso? Claro, terceirizamos esta tarefa para outros, livrando, de certa forma, a nossa consciência.

O “rodeio” pressupõem o cuidado e bem-estar do animal, principalmente do touro, a atração do evento e muito valioso, pois sem ele o evento não acontece! Normalmente não há morte e os cuidados são grandes para não ocorrer maus tratos. O espetáculo da arena de somente alguns segundos substitui o sofrimento e a agonia do abatedouro. O show ao invés da carnificina.

Parece atraente a ideia se o animal pudesse escolher, mas não pode. Nós, mesmo dentro de um sistema opressor, podemos escolher entre a resistência ou a aceitação. Mas se tivéssemos apenas dua opções, o que escolheríamos para nós mesmos? Uma morte brutal em um abatedouro administrado por uma raça que nos subjugasse e que comeria nossas carnes durante um churrasco de final de semana ou que fôssemos colocados à força em uma arena como gladiadores em um espetáculo visto por uma plateia de infelizes feitos de massa de manobra de uma cultura doentia que fazem humanos de escravos e que se contentam com o pão que lhes é jogado?

É a escolha pelo “Pão e Circo”, do rodeio e abatedouros, da politicagem, da má justiça e de todos os sistemas que oprimem e manipulam a população ou a escolha pela resistência a este sistema e a busca por mudanças significavas em nossas ações.

Leandro Bolina Nascimento

Jornalista e fundador do Hortolândia NEWS.

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