Entrevista com Robert Whitaker

Entrevista com Robert Whitaker

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Em entrevista à Web Rádio Unicamp, o jornalista e escritor especializado em medicina, ciências e história Robert Whitaker é questionado sobre como os Estados Unidos se tornaram o maior mercado mundial de consumo de medicamentos psiquiátricos.

Ele explica a lógica por trás das corporações que constituem o conglomerado da indústria farmacêutica que rege a psiquiatria contemporânea nos Estados Unidos. Confira!

 

Em palestra, alunos e docentes da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM), o jornalista e escritor norte-americano, Robert Whitaker, expôs a temática sobre os efeitos a longo prazo de medicamentos psiquiátricos.

Segundo ele, ao contrário do que prega a indústria farmacêutica, o uso de drogas ajuda a criar desequilíbrio químico no cérebro. Além disso, o número de diagnósticos de pessoas com algum distúrbio mental, nos Estados Unidos, triplicou nos últimos 20 anos.

Um dos seus apontamentos é que a batalha mental é um processo normal e que a transição por fases de comportamentos de estresse, ansiedade e depressão podem ser até benéficas para o ser humano.

Em entrevista à Web Rádio Unicamp, Whitaker afirma que a falta de informação à população é um dos principais fatores que modela o comportamento de crianças e adultos dentro deste paradigma de cuidado focalizado nos sintomas e não na causa das doenças mentais.

Se você observar o impacto da psiquiatria na sociedade americana, você percebe que há uma história bem sucedida de uma corporação que convenceu os americanos de que quando eles estiverem estressados ou ansiosos, a saída imediata são os antidepressivos. Eles não têm resiliência para lidar com estes momentos.

Por exemplo, metade do valor arrecadado na venda de medicamentos em todo o mundo vem dos Estados Unidos. Nós somos esse mercado imenso e basicamente você vê a indústria farmacêutica tentando construir este mercado.

Então, quando aparecem estudos científicos provando que pessoas há muito tempo tomando antidepressivos não estão bem, não há uma preocupação real com o tema.

Em seu novo livro “O Estado da Mente Americana”, o autor destaca estatísticas que em sua opinião são sinais alarmantes do excesso de diagnósticos errados.

Que dizer do fato de que 20% dos americanos tomam remédios psiquiátricos todos os dias. Por que isso não é alarmante? E o fato de que 20% dos nossos jovens são diagnosticados com alguma doença mental antes mesmo de atingir a maior idade? Será que eles estão realmente doentes? Isso deveria ser um sinal de que precisamos mudar algo como sociedade.

As indagações do jornalista vão ao sentido de questionar quais as melhores alternativas para que as pessoas comecem a repensar o tratamento baseado em remédios. Whitaker pontua que parte desta realidade é uma expressão da falta de conscientização política do povo americano.

Mas a pergunta é – Por que os americanos não tem autoconhecimento? Essa é a questão. E por que não são mais críticos das políticas nacionais. A resposta é que existe a narrativa da excepcionalidade americana, de que somos melhores. E isso, na verdade, nos impede de sermos mais introspectivos.

Isso é simplesmente impressionante! Sabemos tão pouco do resto do mundo! É realmente alarmante às vezes.

É como se você não fosse patriota se criticasse a guerra ao terror, a decisão de invadir o Iraque… Se você questiona o que estamos fazendo com as pessoas na Baía de Guantánamo ou a vigilância de civis que só cresce? É como se tivessem acabado com o debate público dessas questões, dizendo que se você é muito crítico em relação ao que acontece nos Estados Unidos, você é antiamericano.

Quer dizer, é ridículo! Quando isso acontece, esse bloqueio da introspecção, você se pergunta: O que está acontecendo com nosso povo? Não há angústia. E realmente não há espaço político para uma boa conscientização desse tipo, especialmente nos dias de hoje, em que a ideia de ser crítico torna você um antiamericano. Então, você é calado. Não sei se sempre foi assim nos Estados Unidos, mas é a realidade atual.

Fonte: Victoria Monti Hugueney, RTV Rádio UnicampFacebook e Faculdade de Ciências Médicas – Unicamp (negritos acrescentados).

A Redação

Por Uma Mídia Livre em Hortolândia.

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