Antônio Carlos Zuffo Discute a Crise Hídrica

Antônio Carlos Zuffo Discute a Crise Hídrica

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É São Pedro Que Não Faz Chover?

A falta de chuva não é culpa de São Pedro e muito menos do homem, apesar de suas ações devastadoras no meio ambiente. Parece que o grande responsável pela falta de chuva é o sol.

O sol é o responsável pelas variações climáticas, inclusive pelas variações nas precipitações de chuva, mais baixas ou mais altas, segundo explicações do pesquisador do Departamento de Recursos Hídricos (DRH) da Unicamp, Antônio Carlos Zuffo, o qual vem estudando a influência do sol (ciclos solares) sobre os fenômenos naturais, que segue um padrão, e assim descarta a ação antropogênica (causada pelo homem) que não explica estes fenômenos cíclicos; pois se observa períodos semelhantes no passado (década de 50), onde também houve escassez de água e não havia poluição e desmatamento como se vê hoje. Dados que a teoria do Aquecimento Global não consegue explicar, pois agora entramos num período de resfriamento global.

“O macroclima global é definido tanto pela circulação atmosférica quanto pela oceânica, que têm a capacidade de redistribuir o calor recebido do Sol, nossa estrela maior.” (ZUFFO, DAE, Jan/Abr de 2015, pag. 6)

Isso explica a teoria do Efeito José, períodos de maiores farturas (1970 a 2003 em SP) intercalados por períodos de escassez de recursos (1935 a 1969 e agora 2004 a 2038).

Já a teoria do Efeito Noé, é uma exceção dentro do ciclo, como aconteceu do ano de 1982 a 1983 (menos de 1 ano), onde os reservatórios do Sistema Cantareira se encheram; no entanto, isso ocorreu dentro de um ciclo de abundância de água (1970 a 2003).

Para mais detalhes sobre a ação do sol nas variabilidades climáticas, leia o artigo publicado pelo professor, na Revista DAE de Jan/Abr de 2015.

Fórum de Discussão

Zuffo iniciou a conversa mencionando o evento que estão organizando, o “Fórum de discussão sobre a crise hídrica”, que acontecerá no Centro de Convenções da Unicamp, com previsão para o dia 16 do próximo mês. Terão a presença de dois americanos especializados em resoluções de conflitos de crise hídrica e também serão convidados, o secretário de saneamento, o presidente da ANA (Agência Nacional de Águas), o prefeito de Campinas, o presidente da SABESP, o Ministério Público, o Comitê PCJ (Comitê das Bacias do Rio Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e o secretário de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, Benedito Braga.

O Grande Culpado

Em diversos meios de comunicação, que fazem menção à crise hídrica, o culpado parece ser sempre o usuário doméstico; no entanto, segundo o pesquisador, o “grande culpado” são as perdas por vazamento nas redes de abastecimento que chegam a mais de 40% e equivalem a duas transposições do Paraíba do Sul. Sem as perdas, o consumo per capita passaria de 200 a 250 litros/habitante/dia para 100 a 150 litros/habitante/dia.

Já a afirmação de que o agronegócio é o grande vilão por ter uma média de consumo de água de 72%, há que considerar que se trata de uma média nacional; no Estado de São Paulo a média cai para 42% e no Alto do Tietê para 0,9%, onde a irrigação é usada somente de forma complementar (quando não há chuva).

Plantações que dependem da irrigação, com grandes volumes de água, ficam em regiões onde o seu uso não afetará os habitantes locais e muito menos os habitantes do Estado de São Paulo e da região de Campinas. São regiões como as margens do Rio São Francisco e o cerrado brasileiro. Talvez, pelo grande uso da água dos rios para a irrigação, afete usinas hidrelétricas, pela consequente diminuição da vazão.

Maior Cloração

Com a diminuição da vazão dos rios, e a proporção aumentada de efluentes (esgoto), a quantidade de cloro para a desinfecção da água também aumenta. No rio Atibaia, que abastece Campinas, de 5mg/l, passou-se a utilizar, num certo período de baixa vazão, 120mg de cloro/litro de água, para garantir a potabilidade aos consumidores. No entanto, o cloro soluciona o problema dos patógenos, mas não da toxidade.

Medicamentos como antibióticos e hormônios tem um ciclo de vida longo na água.

“Remover os fármacos é um dos grandes problemas no tratamento de água”, afirma Zuffo.

Região de Campinas Depende do Sistema Cantareira

O Rio Piracicaba, formado pelo Jacareí e Jaguarí (este último que nasce em Extrema, MG), é o grande doador de água para o Sistema Cantareira, incluindo também o Rio Cachoeira e Atibainha que formam o Rio Atibaia.

Se não tivesse o Sistema Cantareira, toda a água viria para o Rio Piracicaba. Desta forma, a água do Cantareira também serve a região da bacia PCJ. Com menos água nos reservatórios e com a falta de chuva, a vazão para a região de Campinas também diminui proporcionalmente ao estabelecido na outorga de 2004, e gera um conflito no uso das águas, pois a região de São Paulo ganha politicamente pelos quase 10 milhões de habitantes contra 5 milhões da região da Bacia PCJ. Se a vazão dos rios estiver muito abaixo, haverá racionamento.

Periferia sem Água

Com a baixa vazão e mesmo sem anúncio de racionamento, já se pode observar a falta de água por até mais de 12 horas em bairros da periferia como o São Marcos em Campinas. Para Zuffo, isso já é um reflexo da falta do recurso (a água). No entanto, bairros da periferia e regiões altas são, naturalmente, os primeiros a ficarem sem água e os últimos a receberem água na retomada da mesma. É como se fosse uma mangueira furada que recebe água; a água vai saindo e pode não chegar ao final da mangueira, explica o pesquisador. Talvez um bairro nobre localizado na periferia da cidade não ficaria sem água, pois a cobrança política e econômica é maior, pondera.

Os Comitês Sumiram da História

Os comitês de bacias, como o Comitê PCJ, se tornaram apenas uma extensão do Estado. Quem acaba gerenciando os recursos hídricos é o Estado por meio dos comitês. A representação civil é pífia e não há engajamento dos representantes dos municípios. Já o DAE, a SABESP e a CETESB não podem abrir a boca. Os comitês sumiram da história, afirma categoricamente.

Com isso surge a solução do Estado para a Escassez da Água através do Gabinete da Crise, onde se percebe uma tentativa de solução centralizada e sem transparência, o que fatalmente pode levar a um possível colapso, a um desastre, explica.

“Todos os modelos no mundo em que o sistema era centralizado, ele não deu certo, porque você tem uma resposta muito lenta para as necessidades (…). Todos os exemplos de gerenciamento bem sucedido, você tinha a participação dos usuários, de toda a bacia, de todos os atores envolvidos (…). E o sistema tem que ser transparente, porque você tem que conhecer qual que é a realidade; para você tomar as decisões, até se for necessário, ‘cortar na carne’; você faz aquilo consciente. Agora, quando vem de cima pra baixo, você não acredita. E as informações que estão te falando agora, que com 14% não vai ter racionamento…, mas esses 14% é em relação a quê? Hoje, nós estamos na segunda cota do volume morto (…). Os Comitês deveriam estar trabalhando, não o Gabinete da Crise.”

Acompanhe o volume dos reservatórios através dos dados fornecidos pela SABESP. Explicação dos Erros.

Os Governantes Não Sabiam de Uma Possível Crise Hídrica?

No dia 20 de junho de 2013, dia das grandes manifestações em São Paulo, Antônio Carlos Zuffo, esteve na ALESP (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), num Fórum de Debates do Sistema Cantareira, organizado pela, então, Deputada Estadual Ana Perugini, onde afirmou às autoridades presentes, que na próxima escassez, não haveria água para o Alto do Tietê e nem mesmo para a Bacia PCJ, pois a gestão do Sistema Cantareira era de altíssimo risco. Nesta data, o Sistema não apresentava nenhum sinal de escassez; no entanto, as chuvas seguintes vieram com precipitações mais baixas, de 30 a 35% menos que a média, levando o sistema ao estado que se encontra hoje. Zuffo ainda recorda, de um relatório da USP de 2009, apresentando um risco de desabastecimento em 10 anos.

Racionamento

“Não tem outra possibilidade. Vai ter racionamento!”
Só se vier um Efeito Noé por aí, mas é pouco provável, pois a cada dia nos aproximamos mais dos meses de menores precipitações e baixa umidade.

(Entrevista realizada no dia 19/02/2015 no Departamento de Recursos Hídricos da Faculdade de Engenharia Civil. Entrevistado: Antônio Carlos Zuffo, professor e pesquisador)

A Redação

Por Uma Mídia Livre em Hortolândia.

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